Eu adoro dar aula, não gosto de corrigir prova.
É chato.
Você num domingo à tarde, a família tomando sol, ou na praia, ou tomando uma cerveja, e você ali lendo 200 coisas.
lendo a mesma notícia em 200 jornais diferentes.
Ah, se eu pudesse, sabe o que eu faria?
Eu terceirizaria a correção.
Por que eu não posso fazer?
Nem usando o chatbot.
Porque se eu não corrigir o que escreveram a partir daquilo que eu ajudei a ensinar,
Eu não vou saber como as pessoas estão aprendendo e, portanto, como eu estou ensinando.
Então eu tenho que fazê-la.
Mas eu não gosto.
Assim como eu não gosto de fazer musculação.
Ou fazer esteira.
E eu faço musculação três vezes por semana.
Fiz hoje.
Faço esteira todos os dias, exceto sábado e domingo.
Eu detesto.
Detesto.
Eu faço, pego ali o peso, fico, pego o elástico, estico, etc.
Sabe por que eu faço?
Porque eu tenho um propósito.
Não antecipar a minha terminalidade.
Não antecipar a minha partida.
Eu tenho dois netos e duas netas, eu quero conviver mais com eles.
Eu quero ter mais presença.
Eu não quero a eternidade nesse sentido de imortalidade, porque isso é uma impossibilidade, mas eu não quero também
de modo inútil, passar a ter dificuldades, turbulências, se eu consigo evitar fazendo algumas coisas que
Eu não quero fazer, porque o meu propósito é maior.
Assim como você, muitas vezes, está numa atividade, está num emprego,
o que você não acha que é aquilo que você quer fazer naquele momento
mas ele servirá para você preparar o teu tempo numa outra circunstância.
Por isso, volto ao ponto, não confunda...
Cansaço com estresse Cansaço, o esforço intenso te deixa, sem dúvida,
Com dificuldade.
Mas o estresse é ausência de sentido.
O que é que te realiza?
Gostosa a expressão, porque em português ela não tem o mesmo sentido que tem em inglês.
Porque em inglês, vocês sabem, o verbo to realize significa dar-se conta, ter consciência.
Eu, Cortella, gosto, e acho que você sem dúvida também, de fazer coisas nas quais eu me reconheça e seja reconhecido.
Eu tenho uma profissão, esta profissão que tenho, que é de professor, que permite muita convivência com o reconhecimento.
Mas há outras profissões que guardam um certo anonimato.
Isto é, a pessoa não é visualizada naquilo que faz.
São pessoas que estão no nosso dia a dia, enquanto nós estamos aqui agora,
nessa reflexão, que estão cuidando do som, da segurança, da iluminação, cuidando do...
ar-condicionado, cuidando para que a gente possa sair depois daqui.
Estou falando imediato a nossa situação.
No entanto, eu não tenho dúvida...
que essas pessoas se sentem absolutamente valorizadas quando elas veem que está tudo em ordem, cheio de graça.
Legenda Adriana Zanotto
Eu vou contar algo que eu gosto de trazer à tona, sob o propósito que aparece no livro meu mais antigo, que eu aprecio muito, chamado Qual é a Tua Óbada?
que é um livro sobre gestão, liderança e ética.
Aliás, ele é completado por esse outro, porque fazemos o que fazemos.
E eu vou lembrar lá algo que aparece com muita força, porque eu fui secretário de Educação da cidade de São Paulo.
E quando eu estava na secretaria, como todo secretário, todos os dias eu tinha de visitar escolas da prefeitura.
E, portanto, todos os dias eu saía, na época o carro era um Opala, preto de chapa dourada,
Eu ia e a segurança...
e eu ia visitar alguma escola na cidade, duas, três vezes ao dia.
O que acontecia quando eu chegava na escola?
Estavam lá me esperando.
Tinha fita para cortar, bandeirinha.
As crianças estavam todas arrumadas e cheirosas no pátio para cantar uma música que eu tenho trauma.
de tanto que eu ouvi que é maravilhosa, maravilhosa, que é a aquarela do Toquinho.
Porque cada vez que eu entrava numa escola, estava na moda isso, nos anos 1990, lá estavam elas com a bandeirinha...
E é maravilhoso isso.
Depois que terminava a aposentação no pátio...
eu era levado para a sala de professoras ou professores e ali havia um lanche.
com coisas gostosas, que eram feitas ou na escola, ou levadas,
E é claro, vocês já viram, aquela mesa cheia de coisa, um monte de professores e professores em volta, aguardando o secretário comer a primeira esfirra.
Só quando eu algo pegava que as pessoas se aproximavam.
Aquela liturgia do cargo.
Quem ia comigo todas as vezes que eu...
ia visitar a escola, algum assessor ou assessora, isto é,
Alguém que já tinha convicção de que aquilo era cheio de graça.
Razão pela qual estava também numa gestão pública.
Quem não ia comigo...
quem levava a máquina no dia a dia.
Então, por exemplo, no andar que eu ficava, no andar da secretaria, tinha uma senhora, Dona Maria Real,
que no fundo do corredor tinha uma pequena cozinha e ela passava o dia ali fazendo café e levando para o gabinete do secretário.
Porque muita reunião, muita gente, toda hora ela vinha fazer café.
O que a dona Maria achava que ela fazia na Secretaria de Educação?
Café.
No mesmo andar, no final do corredor, além dessa copinha, onde Dona Maria fazia café, tinha uma máquina de reprodução.
aquelas antigas máquinas Xerox grandes, e ali ficava um rapaz o dia inteirinho.
Levantava aquela tampa, baixava, aquela luz passava, aquele calor.
O que ele achava que ele fazia?
Tirava cópia.
No andar de baixo, sob a sala do meu gabinete, ficava a contabilidade, onde as pessoas passavam o dia fazendo nota de empenho.
Um dia eu lembrei de uma coisa que era importante, que eu não tinha notado, que as pessoas não tinham muita clareza do propósito.
Quem tinha clareza?
Eu, a equipe que estava, que tinha se disposto a entrar num projeto político de atividade pública.
Mas os outros, não necessariamente.
E aí eu decidi mudar a lógica.
Em vez de, ao visitar escolas, levar comigo
Quem já estava comigo, quem já tinha clareza do porquê, estava fazendo aquilo que fazia.
eu decidi levar as pessoas do dia a dia da burocracia.
E a primeira delas foi Dona Maria.
Eu falei, amanhã, Dona Maria, eu vou visitar uma escola...
Eu gostaria que a senhora fosse comigo.
Claro que isso precisa cautela para não ser constrangedor.
Precisa de um preparo, porque o secretário é uma figura acima, de repente, entrar no carro.
no banco de trás do Opala sentar junto comigo a esses carros antigos o banco de trás era único
E ficar ali joelhinho com joelhinho com o secretário.
Precisa preparar.
É mais ou menos como algumas famílias que às vezes levam a pessoa que trabalha na tua casa.
Quando vai almoçar, você vai almoçar fora, você leva a pessoa com você.
E ela, que não está habituada a algumas coisas, infelizmente ainda, mas não para sempre.
Aí você entrega o cardápio para ela e diz, o que você quer comer?
Claro que aquilo é um peso imenso.
Primeiro que ela não domina o cardápio.
Segundo, que não está habituada a escolher.
E terceiro, a menos ainda vincular as duas coisas imediatamente, que é o custo.
Então, é necessário uma aproximação que não seja demagógica.
Então, conversar, eu gostaria que a senhora fosse para a senhora ver um pouco o resultado também do seu trabalho.
Aí Dona Maria foi comigo.
Entrou.
Entrou comigo na escola, foi ver as crianças e depois ela foi para a sala onde estava o lanche.
Vocês imaginem.
poder ter o lanche, em vez de só servi-lo, estando ali, estando comigo.
Não era demagogia, era de formação para ela e para mim.
Depois, no outro dia, eu levei, o rapaz tirava cópia no fim do corredor.
Numa outra vez, o pessoal da área de contabilidade, de repente...
que as pessoas começaram a entender que ela não fazia café, ela fazia educação escolar, que aquilo que ela fazia ajudava a aparecer
escola, criança, família, ensino, cuidado, proteção.
que ele não passava o dia só fazendo nota de empenho, que aquilo virava vida e serviço público.
Por que eu estou contando essa história?
Não é uma autoexaltação, embora possa parecer, não quero me elevar com essa questão, mas é um aprendizado que eu tive de ter.
para que as pessoas enxergassem com mais nitidez.
Porque faziam o que faziam.
Vocês não fazem ideia como a capacidade e a qualidade do trabalho se elevou no dia a dia.
Porque, de repente, a cada café que ela fazia, ela sabia que o resultado não era só fazer café.
era auxiliar uma estrutura que tinha uma finalidade que era mais relevante.
